Ser escuteiro não é um papel que se veste ao colocar uma farda, nem uma identidade que se guarda numa gaveta quando termina uma atividade. O verdadeiro escutismo manifesta-se na forma como vivemos cada dia, nas escolhas que fazemos quando ninguém está a observar, na coerência entre aquilo que aprendemos e aquilo que praticamos. A farda é um símbolo importante, mas o escuteiro autêntico é reconhecido sobretudo pelas suas atitudes.
O fundador do Escutismo, Robert Baden-Powell, deixou-nos uma visão que ultrapassa largamente os acampamentos, os jogos e as cerimónias. Quando afirmava que o objetivo do Escutismo era formar cidadãos úteis, felizes e comprometidos com o bem comum, estava a lembrar-nos que a verdadeira medida do nosso percurso não está no número de distintivos conquistados, mas na forma como contribuímos para tornar o mundo um pouco melhor do que o encontrámos.
Na juventude, aprendemos valores como a honestidade, o serviço, a lealdade, a responsabilidade, o respeito pelos outros e pela natureza. Muitas vezes, essas aprendizagens acontecem de forma simples: numa caminhada, numa atividade de equipa, numa boa ação diária ou numa conversa à volta de uma fogueira. Porém, é na idade adulta que esses ensinamentos são verdadeiramente postos à prova. É quando surgem as exigências da profissão, da família, das responsabilidades sociais e das dificuldades da vida que descobrimos se o Escutismo foi apenas uma experiência passageira ou uma escola de vida.
Ser escuteiro adulto significa continuar a viver a Lei e a Promessa, mesmo sem as repetir em voz alta. Significa ser íntegro quando seria mais fácil ceder à conveniência; ajudar quem precisa sem esperar reconhecimento; respeitar a diferença num mundo cada vez mais dividido; cuidar da natureza quando tantos a tratam como um recurso descartável. Significa também manter vivo o espírito de serviço, compreendendo que a boa ação não é um gesto extraordinário reservado para ocasiões especiais, mas uma disposição permanente para servir.
Baden-Powell recordava frequentemente que o verdadeiro sucesso na vida não se mede pela riqueza ou pela posição alcançada, mas pela felicidade que proporcionamos aos outros e pelo bem que deixamos atrás de nós. Esta mensagem permanece profundamente atual. Num tempo marcado pelo individualismo e pela procura constante de vantagens pessoais, o escuteiro é chamado a ser sinal de algo diferente: alguém que coloca os seus talentos ao serviço da comunidade e que procura construir pontes em vez de muros.
Por isso, não somos escuteiros apenas quando usamos um lenço ao pescoço, participamos numa cerimónia ou representamos uma associação. Somos escuteiros quando educamos os nossos filhos com valores, quando desempenhamos o nosso trabalho com honestidade, quando tratamos os outros com respeito, quando assumimos as nossas responsabilidades cívicas e quando escolhemos fazer o bem, mesmo que ninguém repare. Somos escuteiros quando a Lei deixa de ser um texto aprendido e passa a ser um modo de viver.
Talvez seja esse o maior desafio e, simultaneamente, a maior beleza do Escutismo: perceber que ele não termina quando termina a juventude. Pelo contrário, amadurece connosco. O jovem escuteiro aprende os valores; o adulto escuteiro tem a missão de os testemunhar. E é nesse testemunho diário, discreto mas consistente, que honramos verdadeiramente o legado de Baden-Powell e demonstramos que o Escutismo não é apenas algo que fazemos, mas algo que somos.
Porque, no fim de contas, ser escuteiro é escolher, todos os dias, deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrámos. Não apenas quando nos convém, não apenas quando estamos fardados, mas em cada gesto, em cada decisão e em cada encontro com os outros. É essa fidelidade quotidiana aos valores aprendidos que transforma o Escutismo de uma atividade numa verdadeira forma de vida.
Paulo Paias – Escuteiro Adulto, Fraternidade Nuno Álvares (FNA)



