As redes de tráfico de estupefacientes estão a recorrer ao recrutamento de jovens, sobretudo de zonas costeiras, para assegurar a vigilância de locais onde é armazenada droga, podendo os pagamentos chegar aos mil euros por uma única noite, revelou o diretor da Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes da Polícia Judiciária (PJ) à Renascença.
Em declarações ao podcast “Direito à Justiça”, da Renascença e da Ordem dos Advogados, João Oliveira alertou para o surgimento de um fenómeno com possíveis consequências sociais em comunidades mais desfavorecidas, onde jovens são atraídos pela possibilidade de obter dinheiro rápido.
“Temos indicadores fiáveis que apontam para jovens a quem se paga uma verba”, afirmou o responsável, citado pela Renascença, explicando que estes recrutados tendem a não se considerar traficantes por não terem contacto direto com a droga.
Segundo João Oliveira, as organizações criminosas procuram pessoas que conheçam bem o território, nomeadamente em localidades junto à costa e entre comunidades ligadas à pesca. A remuneração pode atingir “mil euros por uma noite de vigilância”.
O responsável da PJ admite que, perante estes valores, pode ser difícil para alguns jovens resistirem à proposta. “Um jovem que recebe mil euros por uma noite… É muito dinheiro”, afirmou, acrescentando que duas noites num mês podem representar dois mil euros.
A droga é habitualmente escondida em casas ou armazéns, alguns dos quais funcionam através de estruturas empresariais de fachada. Estes espaços podem dispor de sistemas de videovigilância e de segurança armada, incluindo, segundo João Oliveira, armas automáticas.
Grande parte da droga armazenada em Portugal terá como destino outros países europeus, embora a PJ não consiga determinar com exatidão qual a quantidade que permanece no mercado nacional.
Pesca e embarcações usadas pelas redes
O responsável da PJ indicou ainda que as organizações criminosas estão a recorrer a embarcações de pesca antigas para operações relacionadas com o tráfico, havendo situações em que essas embarcações são posteriormente afundadas, numa tentativa de eliminar vestígios.
João Oliveira rejeitou também a ideia de uma disputa entre forças de segurança no combate ao tráfico de droga, defendendo que não existe uma “guerra entre polícias”. O responsável admite, contudo, que o fenómeno do tráfico tem registado um crescimento significativo, estimando um aumento de cerca de 20% face ao ano anterior.
Sobre a atuação das autoridades no mar, recordou ainda as limitações impostas pela legislação relativa às lanchas, salientando que a atual lei não permite efetuar detenções em determinadas circunstâncias.
PJ sem sinais de recrutamento de agentes
Questionado sobre o risco de corrupção dentro das forças policiais, João Oliveira reconheceu que, em abstrato, qualquer pessoa pode ser exposta à pressão das organizações criminosas, sobretudo perante dificuldades financeiras.
O diretor da PJ admitiu que já houve, ao longo dos anos, casos de elementos policiais, incluindo da própria Polícia Judiciária, que foram captados por estruturas criminosas através de valores elevados.
Apesar disso, rejeita que exista atualmente um risco generalizado de recrutamento de agentes policiais pelas redes de tráfico. “Não temos qualquer indicador nesse sentido”, afirmou.
João Oliveira sublinhou ainda a confiança na integridade dos profissionais das forças de segurança: “Temos polícias íntegros”, afirmou, destacando a dedicação dos agentes à missão de combate ao crime organizado.


