O Teatro da Trindade INATEL, em Lisboa, acolheu esta segunda-feira, 13 de julho, a apresentação pública da 11.a edição do FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, que decorre de 8 a 18 de outubro sob o tema “Para Além da Pele”.
Este ano, o evento traz a Óbidos o Nobel da Literatura 2023 Jon Fosse e alguns dos maiores nomes da literatura e do pensamento contemporâneo, e marca o arranque da criação do Conselho Estratégico de Literatura e Conhecimento, um órgão consultivo que deverá afirmar-se como uma plataforma de pensamento estratégico, um laboratório de ideias, capaz de consolidar a literatura como política pública, mas também posicionar Óbidos como um território de referência, nas dimensões Cultura, Leitura, Conhecimento, Democracia e Desenvolvimento.
“Hoje multiplicam-se os festivais literários um pouco por todo o lado. Congratulamo-nos com isso, mas importa sublinhar que o FÓLIO não é apenas mais uma tendência. O FÓLIO é uma política pública consolidada e planeada”, começou por afirmar, na ocasião, Ricardo Duque, vereador com o pelouro da Cultura no Município.
Este novo Conselho – que tem entre os seus conselheiros fundadores Pilar del Río, José Luís Peixoto, Mia Couto, Afonso Cruz, Valter Hugo Mãe, Tatiana Salem Levy, José Eduardo Agualusa, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares e ainda Pedro Freitas – terá como missão “fixar as bases científicas, metodológicas e estratégicas do ecossistema literário de Óbidos”, contribuindo para posicionar o concelho como um território produtor de pensamento e de políticas públicas no domínio da literatura e do conhecimento.
“O nosso objetivo é afirmar Óbidos como uma referência europeia e lusófona nas políticas públicas da literatura, da leitura e do conhecimento, reforçando as ligações entre literatura, educação, ciência, tecnologia, inovação, cidadania e desenvolvimento económico”, sustentou, acrescentando que este novo passo “dá suporte institucional ao compromisso assumido com a candidatura de Óbidos a Capital Portuguesa da Cultura 2028”.
Durante a sua intervenção, o vereador dirigiu ainda uma palavra de reconhecimento a Pilar del Río, presidenta da Fundação José Saramago, destacando “a ligação inestimável que une o Município de Óbidos a esta instituição, uma parceria que enriquece a matriz cultural do concelho e o liga de forma duradoura às grandes individualidades da língua portuguesa”.
Para Pilar del Río, “Óbidos é cultura universal”. “Vamos tentar que Óbidos seja Capital Portuguesa da Cultura, que já é”, mas Óbidos podia ser “Capital Ibérica da Cultura. Porque não?”, questionou. “Que a denominação que estamos a tentar obter, e que vamos conseguir, sirva de manifesto. [Porque] o que representa as sociedades e os países são as suas culturas, as suas formas de estar, de querer, de se emocionar, de ler poesia. Não são as guerras, as conquistas, são os encontros. E Óbidos é uma ‘cidade’ de encontros. Por isso uma ‘cidade’ de cultura. E por isso assim devia ser denominada. Sempre”.
Nomes confirmados
Entre os autores já confirmados encontram-se Jon Fosse, vencedor do Prémio Nobel da Literatura 2023 e um dos mais importantes e celebrados autores da atualidade. Escritor e dramaturgo prolífero, estreou-se no romance em 1983 com “Vermelho e Preto”, tendo recebido vários prémios ao longo da sua carreira. A sua extensa obra, traduzida em mais de 50 línguas, inclui romance, teatro, poesia, livros para crianças e ensaio.
A Jon Fosse vão juntar-se nomes de diferentes continentes, como Leïla Slimani, Ana Maria Gonçalves, Kiran Desai, Yann Martel, Aixa de la Cruz, Catherine Millet, Vera Laconelli, Valter Hugo Mãe, Ricardo Araújo Pereira, Marco Neves, entre muitos outros escritores, ensaístas, pensadores e criadores nacionais e internacionais, anunciou Pedro Sousa, curador do FÓLIO Autores.
O conhecimento, as pessoas e a cultura no centro da estratégia
Para o presidente da Câmara Municipal de Óbidos, Filipe Daniel, o FÓLIO representa “a convicção de que um território de pequena dimensão pode e deve liderar grandes transformações quando coloca o conhecimento, as pessoas e a cultura no centro das suas escolhas”, lembrando que este evento constitui hoje uma das expressões mais sólidas da estratégia desenvolvida desde a integração de Óbidos na Rede de Cidades Criativas da Literatura da UNESCO.
Para o autarca, em Óbidos, “a cultura não é uma consequência do desenvolvimento”, mas antes “a causa direta da nossa prosperidade”, reafirmando o compromisso do Município com um modelo de desenvolvimento assente na criatividade, no conhecimento e na valorização da cultura enquanto política pública.
Durante a sua intervenção, Joana Pinho, presidente do Conselho de Administração da Ler Devagar, defendeu que “a literatura continua a ser uma ferramenta fundamental para compreender e transformar o mundo”, sublinhando que o festival é sem dúvida um espaço de encontro entre diferentes linguagens, geografias e formas de conhecimento. “A literatura não serve apenas para contar histórias. Serve para ampliar o campo do possível, para imaginar outras formas de viver em comum, para criar empatia, para ampliar o nosso sentido de responsabilidade, e para nos lembrar que nenhuma comunidade se constrói sem escuta, sem diversidade e sem imaginação”.
A vice-presidente do Conselho de Administração da Fundação INATEL, Eduarda Marques, destacou, por seu turno, o significado da parceria com o festival, afirmando que o FÓLIO constitui “uma extensão natural” do compromisso da Fundação com a democratização da cultura e a valorização das comunidades através da criação artística e da literatura.
Parceira do FOLIO desde 2016 e desde 2018 coorganizadora do festival juntamente com o Município de Óbidos, a Óbidos Criativa e a Ler Devagar, a Fundação INATEL assume, ano após ano, a responsabilidade da programação musical com a curadoria FOLIA.
Pedro Rodrigues, presidente do Conselho de Administração da Óbidos Criativa, centrou a sua intervenção na força motriz do FÓLIO: as pessoas. “O FÓLIO não nasce apenas nos dias em que Óbidos se enche de escritores, leitores, artistas, jornalistas e visitantes. O FÓLIO começa e começou muito antes. Começou numa ideia, numa visão que virou estratégia, numa decisão. E cresce através de muitas pessoas, de muitas horas de trabalho e, tantas vezes, da capacidade de encontrar soluções onde elas não são imediatamente evidentes”. “Não são todos os municípios que conseguem pensar, criar, implementar e manter um evento desta natureza”, reforçou.
Para este responsável, o FÓLIO é o resultado de uma visão estratégica construída ao longo de mais de uma década, que fez da literatura uma marca identitária de Óbidos e uma verdadeira política pública, sublinhando que o festival é fruto do trabalho coletivo e da capacidade do território para pensar, criar e consolidar um projeto cultural de referência.
FÓLIO BD volta a surpreender
O capítulo FÓLIO BD, sob a denominação Flexágono, tem-se afirmado como um espaço mutável de descoberta e reflexão sobre a criação contemporânea em banda desenhada – sobretudo – mas incluindo também outras narrativas gráficas – como por exemplo, o cinema de animação, a ilustração narrativa,
objetos experimentais por, principalmente, autores portugueses ou de expressão portuguesa, explicou o seu curador, Pedro Moura.
“Se começámos como uma mostra relativamente simples de oito artistas de banda desenhada por edição, sempre diferentes e irrepetíveis, os últimos anos tiveram algumas transformações, que se sentirão também este ano. Em primeiro lugar, por proposta da autarquia, introduzimos uma pequena mostra de filmes curtos de animação, focando não tanto uma seleção de autores, mas uma concentração em produtoras nacionais, como a Co.La e a Animanostra, tendo este ano lugar um foco na produtora Sardinha em Lata, com um conjunto de filmes curtos e seus materiais e produção. Uma vez que a Câmara de Óbidos tem um programa de formação em cinema de animação na sua própria rede escolar, o Óbidos Anima, incluímos também uma mostra alargada dos resultados desse projeto espectacular”, explicou.
A programação do FÓLIO BD – Flexágono será liderada pela exposição “Retaliation First”, de Christopher Sperandio (Pinko Joe), que dará também origem ao lançamento de um livro durante o festival. A iniciativa integra ainda exposições de Diniz Conefrey e Patrícia Shim, uma mesa-redonda com os vencedores dos Prémios Nacionais de Banda Desenhada e reforça a internacionalização da marca FÓLIO através da itinerância da exposição Flexágono, desenvolvida em parceria com o Instituto Camões.
FÓLIO EDUCA com iniciativas para todas as idades
Este ano, a curadoria FÓLIO Educa traz 75 oficinas para as escolas, dos primeiros anos de idade ao secundário, mas também aos lares, “numa lógica de educação permanente e ao longo da vida”, explicou, na ocasião, o curador João Couvaneiro. “A criatividade não é um privilégio, mas um direito humano. A escola, como a mais democratizada das instituições públicas, tem de ser epicentro da vida de toda a comunidade, e não plateia”.
Nas escolas estarão escritores, ilustradores, músicos, ceramistas, cenógrafos, “que irão percorrer com os nossos alunos e séniores os bastidores do ato criativo: Como nasce uma história? Como se inventa uma personagem? Como um desenho ganha vida? Como uma palavra ganha forma? Como uma ideia se transforma numa obra? Ninguém aprende literatura apenas lendo. Aprende também (ou sobretudo) escrevendo”, revelou.
Além destas iniciativas, o FÓLIO Educa organiza o Seminário Internacional de Educação, subordinado ao tema “A Inclusão como Projeto de Humanidade”, para além de tertúlias com autores e professores, o V Encontro Nacional de Grupos de Leitores, um Silent Reading Party, uma biblioteca viva, e ainda a criação de bosques literários vivos, junto das escolas.
Tecnologia, IA, literatura e humanidades
O FÓLIO TEC, linha de programação do FOLIO 2026 dedicada à intersecção entre tecnologia, inteligência artificial, literatura e humanidades, ganha este ano identidade e programa próprios, dentro do festival.
“O tema ‘Para além da pele’ pede uma leitura crítica do corpo, do trabalho, do cuidado e da memória. A inteligência artificial atravessa hoje essas quatro dimensões. Não a tratamos como decoração do tema do festival. Tratamo-la como o argumento que o tema torna urgente”, explicou Nuno Gaio, diretor executivo do Parque Tecnológico de Óbidos, que assume esta curadoria.
O programa organiza-se em oito mesas e quatro eixos: o primeiro trata do humano, do trabalho e das organizações. Traz três mesas: o burnout como diagnóstico coletivo, a felicidade no trabalho entre a ciência e a moda de gestão, e o cuidado como forma de liderança.
O segundo eixo trabalha o corpo, a ciência e a tecnologia. Traz ao FÓLIO uma mesa sobre saúde preventiva, do sensor à máquina, domínio que encontra trabalho desenvolvido no Parque Tecnológico de Óbidos.
O terceiro eixo é sobre IA, decisão e futuro. Duas mesas: a primeira, IA na gestão, decisão e inovação. A segunda será sobre o futuro do trabalho e as novas subjetividades. O quarto eixo, a mente pensante, cruza IA, criação e conhecimento. Mesas: a IA e a criação literária. Máquinas que escrevem, prémios, e a questão dos direitos de autor. E os limites do que a máquina pode saber e decidir, com os mercados financeiros como caso de estudo.
FÓLIO Ilustra com mais de uma centena de artistas
O FÓLIO Ilustra regressa uma vez mais pela mão de Mafalda Milhões, o “rosto” de cerca de 175 criadores envolvidos. Este ano, e sob o tema “A pele” – que remete para a galeria Nova Ogiva, o espaço “que nos dá casa e assento” – o trabalho curatorial propõe “pensar a relação que constitui o corpo, uma construção simbólica e cultural”. “O imaginário não está separado da pele. Ele emerge atravessa as suas camadas e transforma a nossa maneira de existir no mundo e por isso PIM – Para Imaginar o Mundo”, descreveu.
“Propomos pensar a pele, ler a pele, a pele que revela, a pele que protege, a pele expressão, a pele identidade, relação, imaginário, território, a pele escrita, a pele suporte, ou a pele máquina. Este é o momento de chamar sangue novo, e por isso estará connosco Flávia Bonfim, co-criadora, co-curadora, e é também a ilustradora residente. Esta edição será a edição com mais países representados: França, Espanha, México, a Colômbia, Brasil, Irão, Rússia, Ucrânia, Inglaterra, EUA, Inglaterra, Índia, entre outros. A pele, o território, o chão comum. Vamos trazer a ilustração a habitar outros suportes, outros lugares. A criação de diálogos entre imagem, materialidade e leitura no espaço na Casa da Ilustração que é a Galeria Nova Ogiva”, explicou Mafalda Milhões.
E este ano, “celebramos em festa os 30 anos do Prémio Nacional de Ilustração”, cujo prémio será entregue antes da inauguração da exposição PIM! – Mostra Internacional de Ilustração para Imaginar o Mundo, um manifesto pela paz e liberdade que reúne trabalhos de inúmeros ilustradores, e que conta, entre os seus parceiros, com a DGLAB – Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, a Vista Alegre e a Viarco.
“Na galeria Nova Ogiva, vamos imaginar o mundo com instalações, visitas orientadas para grupos, conversas, apresentações de livros, lançamentos, oficinas, encontros, aulas, contos e reflexões. Estarão presentes, entre outros nomes, Melissa Castrillon (colombo-britânica), Flávia Bonfim (Brasil), ONDJAKI (Luso-angolano), Pierre Pratt (luso-canadiano), Adélia Carvalho (Portugal), Marcos Guardiola (Espanha), André da Loba (Portugal), João Vilhena (Portugal), Jorge Silva (Portugal), Rachel Caiano (Portugal), Paula Carballeira (Galiza) e Piet Grobler”.
Já a curadoria FÓLIO Mais convida este ano o visitante a pensar a pele não como aquilo que delimita o copo, mas como aquilo que nos abre ao mundo. “É nesse contexto que o FÓLIO Mais pretende aprofundar os temas centrais de Silvia Federici: pensar a terra, o cuidado, a ecologia, a memoria”, explicou a curadora Candela Varas.
A sua programação apostará em formatos híbridos que juntam literatura, escuta e ecologia, propondo um trabalho “que transforma a nossa relação com o mundo”. Em conjunto com o Fólio Educa, “promoveremos uma intervenção participativa de recuperação ecológica através da plantação de árvores, envolvendo escolas e também os mais velhos”. Trata-se de “um compromisso coletivo de cuidado, capaz de perdurar para além dos dias do festival”, salientou.
O FÓLIO é organizado pelo Município de Óbidos, em parceria com a empresa municipal Óbidos Criativa, a Ler Devagar e a Fundação Inatel, desde 2015. A edição de 2025 recebeu mais de 100 mil visitantes, consolidando o evento como um pilar estratégico da política cultural de Óbidos e como motor de desenvolvimento económico e visibilidade internacional da vila, reconhecida como Cidade Criativa da Literatura pela UNESCO. Conta uma vez mais com o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Presidente da República.


