16.2 C
Caldas da Rainha
Quinta-feira, Maio 14, 2026

Escritores angolanos desvalorizaram contribuição de mulheres para independência

Um estudo da literatura pós-colonialista como fonte privilegiada da história angolana descobriu que muitos escritores angolanos desvalorizaram a contribuição das mulheres para a luta pela independência, afirmou a investigadora Dorothée Boulanger.

A conclusão resultou do livro “A Ficção como História – Resistência e Cumplicidades na Literatura Angolana Pós-colonial”, a tradução em português da mesma obra em língua inglesa publicada em 2022 pela académica francesa, professora na Universidade de Oxford. A investigação realizada durante o doutoramento focou-se no estudo de mais de 20 romances de oito escritores angolanos publicados depois de 1977 para fazer uma análise da política e história angolana, mas entretanto surgiram questões sobre o género e as normas sociais.

Boulanger constatou que as personagens femininas são raras e retratadas como “mães e namoradas, muito sexualizadas, frequentemente bastante ‘antipáticas’ e pouco interessantes”.

Para a investigadora, esta caracterização é “redutora” e contraria relatos factuais da participação de mulheres na resistência e movimentos anti-coloniais e na guerra civil angolana.

“É por isso que é interessante juntar todos estes livros, porque assim temos uma imagem mais completa, e a escassez de personagens femininas e mesmo a caraterização das personagens femininas era muito problemática”, afirmou a investigadora à agência Lusa.

Na sua opinião, isto “reflectia claramente alguma coisa profundamente enraizada – não diria necessariamente misoginia, mas sexismo – particularmente no que diz respeito às mulheres quando a luta de libertação estava em causa”.

Boulanger acredita que este é um sinal de como os estereótipos conservadores sobre as mulheres existentes durante o Estado Novo não foram suficientemente questionados após a independência angolana.

“Podemos dizer que os escritores não têm de ser historicamente exactos, podem escrever o que quiserem. O problema é que isto perpetua a invisibilidade das mulheres como agentes históricos, tendo participado nessa história de resistência e libertação”, vincou.

O livro de Dorothée Boulanger explora como escritores famosos, como Pepetela ou José Eduardo Agualusa, e outros menos conhecidos, como Boaventura Cardoso, Sousa Jamba ou Manuel dos Santos Lima, escreveram sobre a história do país.

“A minha principal fonte é a ficção. Interessou-me muito a forma como, ao criarem estas histórias, estão também a contar-nos uma história sobre Angola que é muito real, sobre desigualdade e violência e sobre a construção da elite”, contou a autora.

Inicialmente formada em Relações Internacionais em França, Boulanger interessou-se por este tema depois de passar dois anos como professora no Lobito, em Angola, em 2009 e 2010.

Durante este período, percebeu que as pessoas nem sempre gostavam de falar sobre a situação política, mas que os romances de autores angolanos eram bastante mais ousados na discussão deste tema e do passado recente.

Ao investigar, percebeu que muitos eram ou tinham sido ativistas e tinham relações com o partido no poder, o MPLA.

“O caso dos escritores e de Angola é fascinante, porque estiveram tão envolvidos na luta anti-colonial e também tão próximos da elite pós-colonial. E não estamos a falar apenas de proximidade ideológica ou política, estamos a falar de laços sociais, por vezes familiares, de companheirismo de longa data”, salientou Boulanger.

A académica acredita que este “sentimento de proximidade e, por conseguinte, de reflexão sobre a sua própria posição e independência enquanto escritores, uma vez que conheciam as pessoas que estavam no poder” influenciou a forma como escreveram e interpretaram a história.

Neste aspecto, disse a professora da Universidade de Oxford, a literatura angolana é singular, deixando de ser apenas uma forma de entretenimento e passando a ter um papel de fonte histórica e também de influência sobre o debate e consciência política.

“Ver o envolvimento de tantos escritores e intelectuais a este nível nos assuntos do Estado, e depois serem contadores de histórias absolutamente incríveis, acho isso realmente muito raro. Significa que existe esta ambiguidade quando se lê literatura angolana e a torna absolutamente fascinante”, .

A publicação agora do livro em português é o resultado de uma colaboração da editora Mercado de Letras e da Africae, uma editora financiada pela organização científica francesa CNRS, que vai disponibilizar posteriormente a obra em formato digital de forma gratuita.

“Era muito importante para mim ter uma versão que pudesse ser lida e compreendida por qualquer pessoa da África lusófona e tornar esta investigação disponível para além do público anglófono”, explicou Boulanger.

A académica francesa está agora a trabalhar noutros temas, nomeadamente sobre a escritora moçambicana Paulina Chiziane e também numa comparação das literaturas de Angola, Moçambique e Brasil e a forma como estas falam do ambiente.

A edição da obra em português acontece no ano em que se assinalam os 50 anos das independências dos países africanos que foram colonizados por Portugal.

Artigos Relacionados

Últimas Notícias

Optimized by Optimole