Acampamentos e vigílias prolongadas têm sido utilizados em Portugal por estudantes, professores, empresários e bombeiros para dar visibilidade a reivindicações e prolongar protestos no espaço público. Desde a acampada contra a austeridade, no Rossio, em Lisboa, em 2011, várias iniciativas recorreram à instalação de tendas, embora com objetivos e desfechos distintos.
A contestação mais recente insere-se num historial que inclui intervenções policiais, greves de fome e ocupações de espaços públicos. Os episódios registados ao longo dos últimos anos mostram como as tendas se tornaram um instrumento de mobilização, permitindo manter as reivindicações em evidência para além de manifestações pontuais.
Em 2011, a PSP interveio no acampamento instalado no Rossio sob o lema «Democracia Verdadeira Já!», inspirado no movimento espanhol 15-M. A operação, realizada a 4 de junho, levou à retirada de tendas, cartazes e outros materiais e à detenção de três pessoas, depois de os manifestantes permanecerem cerca de duas semanas na praça. O protesto contestava as medidas de austeridade associadas à intervenção da troika e defendia uma democracia mais participativa.
Nove anos depois, em 2020, a Juventude Social-Democrata (JSD) montou uma tenda em frente ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, em Lisboa, para contestar a falta de alojamento universitário. A iniciativa, liderada pelo então presidente da estrutura, Alexandre Poço, durou cerca de dez horas e terminou com a entrega de uma carta ao ministro Manuel Heitor.
A JSD alegava que, das 2.500 camas para estudantes do ensino superior previstas, apenas 64 tinham sido disponibilizadas. «Qualquer dia, para um estudante deslocado poder estudar, o campismo será a única solução», afirmou Alexandre Poço, citado pela Rádio Renascença.
Nesse mesmo ano, empresários da restauração e das discotecas instalaram-se junto à Assembleia da República, também em Lisboa, numa iniciativa denominada «Sobreviver a Pão e Água». O grupo, composto por oito homens e uma mulher, incluindo o chef Ljubomir Stanisic, José Gouveia e Manuel Salema, iniciou uma greve de fome para exigir uma reunião com o Governo, alegando que os seus negócios estavam em risco devido às consequências da pandemia.
A greve de fome terminou ao fim de sete dias, após uma reunião com o presidente da Câmara Municipal de Lisboa. O grupo não conseguiu, contudo, reunir-se com o então primeiro-ministro, António Costa, ou com o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, como pretendia.
Em 2023, a contestação dos profissionais da Educação também passou pela ocupação de espaços públicos. O Sindicato de Todos os Profissionais da Educação (S.TO.P.), liderado por André Pestana, esteve entre os protagonistas da mobilização, que incluiu greves e manifestações. O dirigente reivindicou, entre outras medidas, um aumento salarial de 120 euros para todos os trabalhadores do setor.
A 24 de abril, foram montadas cerca de 30 tendas no Rossio, posteriormente transferidas para o Largo de Camões, onde permaneceram até 1 de maio. O sindicato afirmou que uma das marchas reuniu mais de 100 mil pessoas, enquanto uma sondagem da Intercampus citada pelo Observador indicava que 60% dos portugueses concordavam com as greves dos professores.
Em maio de 2024, estudantes ocuparam instalações da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, no âmbito de uma vaga internacional de protestos em defesa da Palestina. Os manifestantes exigiam um cessar-fogo imediato e incondicional em Gaza e o fim da utilização de combustíveis fósseis até 2030, tendo instalado oito tendas no átrio da faculdade.
Segundo uma fonte do movimento citada pelo Observador, a PSP mobilizou entre 20 e 25 agentes e deteve oito ativistas. Os estudantes acusaram as autoridades de recorrerem a força excessiva, uma alegação que, de acordo com a informação disponível, não foi confirmada pela polícia. A ocupação terminou ao fim de dois dias.
Já entre setembro e outubro de 2024, bombeiros sapadores do Porto, Vila Nova de Gaia, Braga e Viana do Castelo mantiveram uma vigília junto à Câmara Municipal do Porto. O acampamento começou a 7 de setembro, na Avenida dos Aliados, e terminou a 15 de outubro, após mais de seis semanas de protesto.
O Observador contabilizou 43 dias de vigília, enquanto a revista Sábado noticiou uma duração de 42 dias. A iniciativa procurou manter a atenção pública sobre as reivindicações dos profissionais e as condições da carreira.
Os diferentes episódios mostram a utilização de acampamentos como forma de prolongar a pressão pública sobre entidades governamentais e instituições. Apesar da diversidade de causas — da austeridade ao alojamento estudantil, das dificuldades económicas às reivindicações laborais e à situação em Gaza —, as tendas funcionaram como um elemento comum de ocupação do espaço público e continuidade da contestação.


