Há 101 anos, na encosta da Serra da Estrela, nasceu uma chama que o tempo não conseguiu apagar.
Uma chama feita de coragem, de serviço, de fraternidade e de amizade.
O Escutismo chegou à Covilhã como uma semente. Uma semente lançada num tempo diferente, numa cidade diferente, mas que encontrou terreno fértil para crescer, criar raízes e atravessar gerações.
Hoje, 101 anos depois, essa semente transformou-se numa árvore de raízes profundas, cujos ramos continuam a estender-se para o futuro.
Foram 101 anos de histórias.
De acampamentos e trilhos.
De jogos e canções.
De noites passadas à volta da fogueira.
De promessas feitas com o coração.
De dificuldades ultrapassadas em conjunto.
Mas também de muito serviço silencioso, tantas vezes longe dos holofotes, junto das pessoas, das instituições e da própria comunidade covilhanense.
Ao longo deste século, milhares de jovens encontraram no Escutismo uma escola de vida.
Aprenderam a ser responsáveis.
Aprenderam a trabalhar em equipa.
Aprenderam a respeitar a natureza.
Aprenderam a servir.
Aprenderam, sobretudo, que ninguém constrói um mundo melhor sozinho.
UMA CRONOLOGIA QUE É MEMÓRIA
A história começa oficialmente em 1925, quando encontramos nos Atos Oficiais a referência ao:
Grupo 19 — Atos Oficiais, Folha de 6/7/1925.
Dois anos depois, em 15 de fevereiro de 1927, os Atos Oficiais, Ano 3, n.º 1, registam um momento de particular importância para o Escutismo na região:
a constituição da 1.ª Junta Regional da Guarda.
A sua estrutura inicial era composta por:
Comissário: Tenente Carlos Alberto Godinho
Diretor: Padre Joaquim Santos Morgadinho
Inspetor: Francisco Fernandes Pombo
A Covilhã assumia, assim, um papel pioneiro na organização e desenvolvimento do Escutismo na Diocese da Guarda.
E a história não ficou por aqui.
Em 15 de fevereiro de 1927, surge também a:
Alcateia 10 — São Francisco Álvares.
E, poucos meses depois, em 15 de junho de 1927, encontramos nos Atos Oficiais a referência ao:
Grupo 3 — Seniores Egas Moniz.
São nomes e datas que podem parecer distantes.
Mas, na verdade, são pedaços vivos da nossa identidade.
Cada grupo, cada alcateia, cada dirigente e cada jovem representou uma peça de um grande puzzle que, geração após geração, foi construindo aquilo que hoje conhecemos como Escutismo na Covilhã.
1957 — UMA NOVA ETAPA
Três décadas depois, surge um novo capítulo desta história.
Em 1957, através da Ordem de Serviço Nacional n.º 186, de 21 de outubro, surge o Agrupamento 20.
Um Agrupamento que viria a tornar-se uma referência incontornável do Escutismo covilhanense e que, ao longo das décadas, foi dirigido por homens e mulheres que deixaram a sua marca:
Plínio Fiadeiro
João Gabriel
João Flores
Fernando Gabriel
António Pombo
António Bento Duarte
Paulo Rodrigues
Cláudio Noy
Rui Rodrigues
Patrícia Fazenda
A todos eles, e a tantos outros que ajudaram a construir este caminho, fica o nosso reconhecimento.
Porque uma organização não se constrói apenas com estruturas.
Constrói-se com pessoas.
Com tempo oferecido.
Com dedicação.
Com sacrifício.
Com capacidade de acreditar mesmo quando os tempos não são fáceis.
A COVILHÃ — BERÇO DO ESCUTISMO NA DIOCESE DA GUARDA
Por tudo isto, a Covilhã pode orgulhar-se de um lugar muito especial na história do Escutismo.
A cidade foi berço do Escutismo na Diocese da Guarda.
Foi aqui que nasceu a primeira Junta Regional, estrutura que mantém a sua sede e funcionamento na cidade até aos nossos dias.
Um sinal extraordinário de continuidade.
Um testemunho vivo de que uma história iniciada há mais de um século não terminou.
Continua.
Foi também na Covilhã que se formou um dos primeiros grupos de jovens escuteiros, dando início a um caminho que se prolongaria através das décadas, atravessando diferentes épocas, gerações e realidades sociais.
O mundo mudou.
A cidade mudou.
Os jovens mudaram.
Mas o ideal permaneceu.
UMA HERANÇA QUE CONTINUA VIVA
Atualmente, a cidade conta com dois Agrupamentos do Corpo Nacional de Escutas:
o histórico Agrupamento 20 e o mais jovem Agrupamento 1304, fundado em 2006, por: Maria Bela
Francisco Pereira (Gino)
Jorge Moreira Silva
Pedro Matias.
Dois Agrupamentos diferentes na sua história e percurso, mas unidos por uma mesma raiz.
Uma raiz que remonta a 1925.
Uma raiz que atravessou 101 anos.
Uma raiz que continua a alimentar novas gerações.
Existe ainda outra importante expressão desta herança escutista na cidade.
Em 1979, nasce o Núcleo da Fraternidade de Nuno Álvares, onde, ao longo das décadas, passaram inúmeros escuteiros formados nos antigos grupos 19 e no Agrupamento 20.
Homens e mulheres que, depois da passagem pelas diferentes secções do Escutismo, encontraram na Fraternidade uma nova forma de continuar a viver os valores que aprenderam.
Porque no Escutismo a caminhada não termina quando se deixa de usar a farda.
O espírito permanece.
A amizade permanece.
A disponibilidade para servir permanece.
E OS QUE JÁ PARTIRAM?
Ao celebrarmos 101 anos, seria fácil olhar apenas para o presente. Mas seria injusto.
Porque atrás de cada número existe uma história. E atrás de cada história existem pessoas. Muitas delas já não estão entre nós.
Dirigentes que dedicaram anos da sua vida aos jovens.Pais que apoiaram. Avós que incentivaram. Escuteiros que cresceram, partiram, constituíram família e levaram consigo os valores aprendidos. Pessoas anónimas que, sem procurarem reconhecimento, deram o seu contributo para que esta chama nunca se apagasse.
Hoje, também por elas, devemos parar um instante.
Recordar.
Agradecer.
E dizer-lhes, onde quer que estejam:
A vossa história continua.
101 ANOS DEPOIS
Celebrar 101 anos não deve ser apenas olhar para trás.
O passado é a nossa raiz.
Mas não pode ser a nossa âncora.
Deve ser a força que nos permite continuar a caminhar.
Os desafios de hoje são diferentes.
Os jovens vivem num mundo profundamente diferente daquele de 1925.
Mas os valores que deram origem ao Escutismo continuam atuais.
Servir.
Ajudar.
Partilhar.
Respeitar.
Ser leal.
Ser responsável.
Viver em fraternidade.
Deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrámos.
É por isso que, 101 anos depois, ainda faz sentido falar de Escutismo.
E é por isso que esta história não pertence apenas aos que a começaram.
Pertence-nos a todos.
Aos que estiveram.
Aos que estão.
E aos que ainda virão.
O FUTURO COMEÇA NA MEMÓRIA
Um dia, outras gerações olharão para trás e falarão dos 125 anos.
Depois dos 150.
E talvez, um dia muito distante, alguém escreva sobre os 200 anos de Escutismo na Covilhã.
Quando isso acontecer, esperamos que encontrem não apenas nomes e datas.
Esperamos que encontrem uma história viva.
Que encontrem pessoas que acreditaram.
Que encontrem jovens que aprenderam a servir.
Que encontrem dirigentes que deram o seu tempo.
Que encontrem uma cidade que soube preservar a sua memória.
E, sobretudo, que encontrem um Escutismo ainda capaz de olhar para o futuro com a mesma esperança daqueles que, há 101 anos, tiveram a coragem de acender esta chama.
Porque esta não é apenas a história do Escutismo na Covilhã.
É uma parte da história da própria cidade.
Uma história feita de gerações.
Uma história feita de pessoas.
Uma história feita de serviço.
Uma história feita de sonhos.
Uma história que começou há 101 anos e que continua a ser escrita todos os dias.
Hoje, ao celebrarmos este aniversário, não devemos apenas dizer:
“Fizemos 101 anos.”
Devemos dizer:
“Recebemos uma história com 101 anos. E temos a responsabilidade de a continuar.”
Que a chama permaneça acesa.
Que o lenço continue ao pescoço.
Que a promessa continue no coração.
E que o espírito de Baden-Powell continue a inspirar aqueles que acreditam que, através de pequenas ações, podemos construir um mundo melhor.
101 anos de Escutismo na Covilhã.
101 anos de história.
101 anos de memória.
101 anos de serviço.
101 anos de fraternidade.
E, acima de tudo,
101 anos de uma história que nos pertence.
SEMPRE ALERTA PARA SERVIR.
Jorge Moreira Silva
Presidente do Núcleo da Covilhã, Região da Guarda, da Fraternidade Nuno Álvares (FNA) – Escuteiros Adultos


