Mais do que Permanecer, é preciso Servir.
Há uma diferença enorme entre dizer que se está no Escutismo há sessenta anos e poder afirmar, de consciência tranquila, que se viveu o Escutismo durante sessenta anos.
A primeira realidade conta o tempo. A segunda revela a vida.
O meu tio, Jose Manuel Amaral Moreira foi quem acendeu em mim a primeira chama, conduzindo-me pela mão até ao ideal sonhado por Baden-Powell.
A minha tia, a eterna madrinha escutista das minhas várias cerimónias de comoromisso, tornou-se a presença discreta, constante e firme que acompanhou o meu percurso desde lobito, passando pela juventude, até ao regresso à Fraternidade.
Com ambos aprendi a maior das lições: o Escutismo não se veste, não se ostenta e não se representa.
Vive-se. E quem não o vive, por mais anos que permaneça no movimento, nunca o compreenderá verdadeiramente.
Ser escuteiro é aceitar um compromisso diário de exigência consigo próprio. É olhar para dentro antes de apontar o dedo aos outros. É reconhecer as próprias falhas, levantar-se depois de cada queda e procurar ser, todos os dias, um pouco melhor do que ontem.
Não é um caminho fácil, nem confortável, nem feito para alimentar vaidades. É um caminho de serviço, humildade, disciplina e coerência.
Infelizmente, o tempo ensinou-me também que permanecer muitos anos numa organização não significa honrar os seus valores.
Há quem transforme o Escutismo num palco onde procura reconhecimento, cargos, distinções e medalhas, acreditando que a longevidade substitui o testemunho. Mas o Escutismo nunca se mediu pelo número de anos, pelas condecorações ao peito ou pelas fotografias onde se aparece.
Mede-se pelo rasto que se deixa na vida dos outros e pela fidelidade silenciosa à Promessa e à Lei.
Também a solidariedade perdeu, por vezes, o seu verdadeiro significado.
Quando o bem se faz para ser fotografado, publicado ou aplaudido, deixa de ser serviço para se transformar em promoção pessoal. O verdadeiro voluntário não precisa de plateias. O verdadeiro escuteiro não necessita de publicidade.
Serve porque acredita que servir é um dever, não uma oportunidade para alimentar o ego.
Vivemos tempos em que a imagem vale mais do que o carácter e em que a aparência procura substituir a essência. Mas o Escutismo nunca foi uma escola de aparências.
Foi, e continua a ser, uma escola de homens e mulheres íntegros, capazes de servir sem esperar recompensa, de liderar sem procurar protagonismo e de deixar marcas profundas sem necessidade de deixar o próprio nome gravado.
Como nos ensinou Baden-Powell:
“O verdadeiro modo de ser feliz é fazer os outros felizes.”
Não disse que era ser admirado.
Não disse que era acumular distinções.
Não disse que era construir uma imagem pública.
Disse apenas aquilo que continua a ser o maior desafio de qualquer escuteiro: servir com humildade, viver com coerência e deixar que sejam as obras e nunca os aplausos a falar por nós.
Porque, no fim, o uniforme envelhece, as medalhas perdem o brilho e os cargos passam.
O carácter, esse, permanece para sempre.
Jorge Moreira Silva
Presidente de Núcleo da Covilhã, Região da Guarda da Fraternidade Nuno Álvares (FNA) – Escuteiros Adultos


