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Terça-feira, Agosto 4, 2026

Quando o Escutismo se Vive e Não se Representa…

Mais do que Permanecer, é preciso Servir. 

Há uma diferença enorme entre dizer que se está no Escutismo há sessenta anos e poder afirmar, de consciência tranquila, que se viveu o Escutismo durante sessenta anos. 

A primeira realidade conta o tempo. A segunda revela a vida.

O meu tio, Jose Manuel Amaral Moreira foi quem acendeu em mim a primeira chama, conduzindo-me pela mão até ao ideal sonhado por Baden-Powell. 

A minha tia, a eterna madrinha escutista das minhas várias cerimónias de comoromisso, tornou-se a presença discreta, constante e firme que acompanhou o meu percurso desde lobito, passando pela juventude, até ao regresso à Fraternidade. 

Com ambos aprendi a maior das lições: o Escutismo não se veste, não se ostenta e não se representa. 

Vive-se. E quem não o vive, por mais anos que permaneça no movimento, nunca o compreenderá verdadeiramente.

Ser escuteiro é aceitar um compromisso diário de exigência consigo próprio. É olhar para dentro antes de apontar o dedo aos outros. É reconhecer as próprias falhas, levantar-se depois de cada queda e procurar ser, todos os dias, um pouco melhor do que ontem. 

Não é um caminho fácil, nem confortável, nem feito para alimentar vaidades. É um caminho de serviço, humildade, disciplina e coerência.

Infelizmente, o tempo ensinou-me também que permanecer muitos anos numa organização não significa honrar os seus valores. 

Há quem transforme o Escutismo num palco onde procura reconhecimento, cargos, distinções e medalhas, acreditando que a longevidade substitui o testemunho. Mas o Escutismo nunca se mediu pelo número de anos, pelas condecorações ao peito ou pelas fotografias onde se aparece. 

Mede-se pelo rasto que se deixa na vida dos outros e pela fidelidade silenciosa à Promessa e à Lei.

Também a solidariedade perdeu, por vezes, o seu verdadeiro significado. 

Quando o bem se faz para ser fotografado, publicado ou aplaudido, deixa de ser serviço para se transformar em promoção pessoal. O verdadeiro voluntário não precisa de plateias. O verdadeiro escuteiro não necessita de publicidade. 

Serve porque acredita que servir é um dever, não uma oportunidade para alimentar o ego.

Vivemos tempos em que a imagem vale mais do que o carácter e em que a aparência procura substituir a essência. Mas o Escutismo nunca foi uma escola de aparências. 

Foi, e continua a ser, uma escola de homens e mulheres íntegros, capazes de servir sem esperar recompensa, de liderar sem procurar protagonismo e de deixar marcas profundas sem necessidade de deixar o próprio nome gravado.

Como nos ensinou Baden-Powell: 

“O verdadeiro modo de ser feliz é fazer os outros felizes.”

Não disse que era ser admirado. 

Não disse que era acumular distinções. 

Não disse que era construir uma imagem pública.

Disse apenas aquilo que continua a ser o maior desafio de qualquer escuteiro: servir com humildade, viver com coerência e deixar que sejam as obras e nunca os aplausos a falar por nós.

 Porque, no fim, o uniforme envelhece, as medalhas perdem o brilho e os cargos passam. 

O carácter, esse, permanece para sempre.

Jorge Moreira Silva 
Presidente de Núcleo da Covilhã, Região da Guarda da Fraternidade Nuno Álvares (FNA) – Escuteiros Adultos

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