Quando, em 1907, Baden-Powell reuniu os primeiros rapazes na Ilha de Brownsea, a sua ambição ia muito além de criar uma atividade ao ar livre.
O seu verdadeiro propósito era formar homens e mulheres de caráter, capazes de servir os outros, viver com humildade e dar o exemplo através das suas ações. Acreditava que a transformação da sociedade não aconteceria por decretos ou discursos, mas pela educação de sucessivas gerações, moldando consciências, fortalecendo valores e despertando o sentido do dever.
Mais de um século passou. O mundo mudou profundamente, mas continua marcado por guerras, injustiças, egoísmo, corrupção, intolerância e uma crescente cultura do individualismo.
Perante esta realidade, é legítimo perguntar: terá o escutismo falhado?
A resposta não pode ser simplista.
Se o objetivo fosse criar uma sociedade perfeita, então a resposta seria negativa, porque essa sociedade ainda não existe. Mas se o objetivo foi formar milhões de cidadãos mais responsáveis, mais solidários, mais disponíveis para servir e mais conscientes do seu papel no mundo, então o escutismo é, sem dúvida, uma das maiores obras educativas dos últimos cento e vinte anos.
Ao longo das décadas, milhões de escuteiros espalhados pelos cinco continentes tornaram-se professores, médicos, bombeiros, militares, sacerdotes, voluntários, pais e mães de família, dirigentes e cidadãos que procuraram viver segundo os valores aprendidos junto da fogueira, no campo, na patrulha e na Promessa.
Muitos nunca receberam qualquer condecoração, nunca ocuparam cargos de destaque e nunca apareceram nas notícias.
Ainda assim, foram eles que, silenciosamente, fizeram do mundo um lugar um pouco melhor.
É verdade que nem todos os que passam pelo escutismo permanecem fiéis ao seu ideal.
Alguns afastam-se, outros esquecem os compromissos assumidos.
Mas isso não diminui a força da semente lançada.
Educar nunca significou garantir resultados absolutos; significa oferecer ferramentas para que cada pessoa escolha o caminho do bem.
Talvez o maior desafio da atualidade seja precisamente este: vivemos numa sociedade onde o sucesso é frequentemente medido pelo poder, pela imagem e pelo reconhecimento imediato.
O escutismo continua a propor exatamente o contrário: o serviço antes do protagonismo, a humildade antes da vaidade e o exemplo antes das palavras.
Por isso, o êxito do movimento não se mede pela ausência de problemas no mundo, mas pela presença de homens e mulheres que, todos os dias, escolhem servir sem esperar recompensa, ajudar sem procurar aplauso e liderar pelo exemplo.
Cada escuteiro que vive autenticamente a sua Promessa é uma prova de que a visão de Baden-Powell continua viva.
O “homem novo” com que Baden-Powell sonhou não nasce de uma geração nem de uma revolução.
Constrói-se lentamente, geração após geração, através da educação, do testemunho e do serviço.
É uma obra sempre inacabada, mas que continua a avançar.
Enquanto houver um escuteiro disposto a fazer todos os dias uma Boa Ação, a colocar o bem comum acima do interesse pessoal e a deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrou, o sonho iniciado em Brownsea, em 1907, continuará a cumprir a sua missão.
Talvez não transforme o mundo inteiro de uma só vez, mas transforma vidas. E são sempre as vidas transformadas que acabam por transformar o mundo.
Como dizia o fundador, Baden-Powell, “devagar devagarinho que se pega o macaquinho”.
Jorge Moreira Silva
Presidente do Núcleo da Covilhã, região da Guarda da Fraternidade Nuno Álvares (FNA) – Escuteiros Adultos






