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Domingo, Maio 24, 2026

25 Abril: A noite em que a conspiração dos capitães passou pela Caparica

Uma casa junto à praia, numa noite de dezembro, foi o cenário escolhido há 50 anos para uma reunião clandestina, na qual o movimento dos capitães juntou 40 oficiais para conspirarem contra o regime que derrubariam em abril.

Foi na Costa da Caparica que a 05 de dezembro de 1973 se reuniu pela primeira vez a comissão coordenadora do movimento dos capitães eleita em Óbidos, dias antes. A casa que serviu de base à conspiração ostenta orgulhosamente a data na fachada, com uma inscrição alusiva ao acontecimento: “A liberdade começou aqui”.

Vasco Gonçalves, que viria a ser primeiro-ministro nos governos provisórios a seguir ao 25 de Abril de 1974, Vasco Lourenço, Vítor Alves e Otelo Saraiva de Carvalho, capitães com um desempenho central no movimento, encontravam-se entre os 40 oficiais que, um a um, transpuseram a porta de entrada, sem dar nas vistas.

“Lá fomos para uma vivenda e fizemos a primeira reunião da comissão coordenadora, mas em que chamámos um grupo do Porto. Não estava na comissão coordenadora, mas era um grupo muito importante. Convinha-nos que eles estivessem para ajudar a analisar a situação e convidámos mais duas ou três pessoas, nomeadamente o general Vasco Gonçalves, que não podia ter ficado na comissão coordenadora porque não queríamos coronéis”, recordou o agora também coronel Vasco Lourenço, em entrevista à agência Lusa, cuja primeira parte hoje se divulga.

A reunião da Caparica teve dois grandes objetivos, sendo o primeiro estruturar a comissão coordenadora recém-eleita, definir pelouros e subcomissões, a organização dos 23 elementos que a compunham. Decidiram depois escolher a direção do movimento, constituída por três oficiais. Vítor Alves ficou responsável pela ligação à Marinha e à Força Aérea, Otelo assumiu o secretariado e Vasco Lourenço a responsabilidade operacional.

“Fiquei responsável por aquilo que, em termos partidários, se pode chamar o aparelho do partido. Isto é, toda a estrutura de organização do movimento e a ligação entre os vários elementos e as várias subsecções”, contou.

Foi criada uma subcomissão de estudo da situação, que teria como missão começar a delinear o plano de operações: “Fazer o levantamento das nossas forças, das forças do inimigo, etc, etc…e depois começar a pensar numa estrutura operacional, que foi decidido que dependia de mim. Fiquei o responsável operacional por todo o movimento”.

Os militares discutiam questões corporativas, a guerra colonial estava sempre presente, mas havia quem não estivesse alinhado com os ideais que dentro de meses culminariam num golpe militar e na consequente independência dos territórios ultramarinos.

“Fiz questão de levar o Luís Banazol para, mais um vez, dinamitar a discussão com é preciso fazer um golpe militar e tem de ser já e nós é que temos de fazer, venham comigo”, relatou. Encontraram-se no Apolo 70, um dos primeiros centros comerciais que surgiram em Lisboa, juntamente com outro capitão, Piteira Santos, que viajou de Évora para participar na reunião.

Seguiram para a Caparica, naquela tarde de dezembro. “A vida corria normalmente e nós andávamos a conspirar”, disse quando questionado sobre a atmosfera que se vivia na altura.

Passado pouco tempo do início da reunião, uma súbita posição ameaça pôr em causa o sucesso da conspiração, um episódio que Vasco Lourenço hoje classifica como caricato, mas que na altura “não teve assim tanta piada”, confessou.

“O elemento da Cavalaria que estava a substituir o [capitão Manuel] Monge, que estava mobilizado e portanto não podia exercer as funções, o Lopes Saraiva, a certo momento, levanta-se e diz – Eu ouvi aqui falar em direito à autodeterminação e à independência? Isso é uma traição e eu estou aqui a mais”.

“Calcule, no meio daqueles conspiradores, aquilo caiu ali que nem uma bomba! Ficámos todos a olhar, a pensar de onde é que saiu esta avestruz? E eu, que estava a moderar a reunião, olhei para ele e ele percebeu a situação de gravidade que se tinha criado, porque nos conspiradores a sério já dali não saía com vida. E diz – Eu vou-me embora, mas juro, dou a minha palavra de honra, que não conto nada do que aqui se passou”, prosseguiu Vasco Lourenço, num relato em que transparece a tensão criada.

Olhou rapidamente para os camaradas e ditou a sentença: “Bem, vais embora, lembra-te da promessa que fizeste. Se não cumprires essa promessa, um dia, sem dares por isso, tropeças aí numa coisa fria ou numa coisa quente. Nunca se sabe se será quente, se será fria, mas tropeças”.

O conspirador dissidente era nem mais nem menos do que afilhado de Vasco Gonçalves, que depois do sucedido confessou ter ficado surpreendido quando o viu na sala. “Quando aqui cheguei e vi aquele rapaz fiquei muito admirado por o encontrar aqui, porque eu conheço-o, sou padrinho dele, mas não tem nada que ver connosco”, disse, segundo Vasco Lourenço.

Vasco Gonçalves acabou por atestar palavra dada. O afilhado nada diria.

“E não disse. Depois, acabou por ter azar, porque foi o único que foi preso no 25 de Abril, porque ele estava em Cavalaria 7 e o Otelo organizou equipas de comando para prenderem os oficiais de Cavalaria 7, que eram inimigos para nós e quando fossem alertados em casa do que se estava a passar e fossem chamados para irem para a unidade, haveria uma equipa de comando que os prendia à saída de casa e não os deixava ir para a unidade. E ele é o único porque essa equipa de comando funcionou e as outras borregaram todas e não cumpriram a missão”, acrescentou Vasco Lourenço, lamentando que outro responsável operacional, Jaime Neves, não tenha cumprido as missões de que estava incumbido. “Ia pondo tudo em perigo só porque foi para o Tamila Club beber copos com as amantes pá”.

Perigos à parte, Portugal deixou de ser uma ditadura no dia 25 de Abril de 1974, quando se cumpriu o golpe militar delineado pelo movimento dos capitães.

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