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Quarta-feira, Abril 15, 2026

Tailândia vai hoje a votos em eleições centradas no papel dos militares na política

A Tailândia realiza hoje eleições gerais, as segundas após o golpe de Estado de 2014, em que estão em causa o papel dos militares na política no país.

O país já sofreu mais de uma dezena de golpes de Estado desde que se tornou numa monarquia constitucional, em 1932, o último dos quais em 2014, sob o comando do atual primeiro-ministro Prayuth Chan-ocha, quando este era comandante do exército.

Sob a administração militar, foram reprimidas reformas democráticas e perseguidos ativistas. Outras razões podem motivar alterações no cenário político: o declínio económico e a má gestão da pandemia da covid-19 reforçaram a insatisfação com o chefe de Governo e candidato à reeleição pelo recém-criado United Thai Nation Party.

“O principal fator poderá ser o facto de as pessoas já não estarem dispostas a tolerar o Governo autoritário que está no poder há mais de nove anos e de haver um desejo significativo de mudança”, afirmou à agência de notícias Associated Press (AP) Pinkaew Laungaramsri, professora de Antropologia na Universidade de Chiang Mai.

Mais de 52 milhões de eleitores são chamados a votar em 70 partidos, que disputam 500 lugares da Câmara dos Representantes, a câmara baixa da Assembleia Nacional da Tailândia: 400 são eleitos diretamente e 100 escolhidos através de uma forma de representação proporcional.

Os partidos da oposição, que aplaudem reformas para controlar o exército, têm vindo a ganhar pontos nas sondagens eleitorais, ainda de acordo com a AP. No entanto, as políticas que ameaçam o ‘status quo’ alarmam o regime conservador no poder. Este tem sido capaz de derrubar governos eleitos pelo povo, seja através de tribunais vistos como pró-monarquia ou golpes militares.

Prayuth representa um dos polos da política do país asiático, centrado nos monárquicos e militares. Thaksin Shinawatra, populista multimilionário, deposto no golpe de 2006, representa o outro.

Nas sondagens de opinião, Prayuth perdeu terreno para a filha de Thaksin, Paetongtarn Shinawatra, que herdou a popularidade e o estilo político do pai. Com 36 anos, fez uma intensa campanha durante a gravidez, teve um filho na semana passada.

Paetongtarn Shinawatra é, além disso, a favorita entre os três candidatos ao cargo de primeiro-ministro do partido da oposição Pheu Thai, que deverá obter a maioria dos lugares na câmara baixa do parlamento.

O frente a frente entre o clã Shinawatra e os adversários evoca outros episódios recentes da trajetória política tailandesa. O golpe de Prayuth, em 2014, destituiu um Governo que tinha chegado ao poder com Yingluck Shinawatra, tia de Paetongtarn e irmã de Thaksin. O Pheu Thai liderou, além disso, a votação de 2019, tendo-lhe sido negado o poder quando o Partido Palang Pracharath, apoiado pelo exército, encontrou parceiros para a criação de uma coligação.

Mas um terceiro ator tem ganhado visibilidade nestas eleições. O partido Move Forward, liderado pelo empresário Pita Limjaroenrat, 42 anos, é um nome forte entre os eleitores jovens e aparece como favorito para o cargo de primeiro-ministro nas sondagens do Instituto Nacional para a Administração do Desenvolvimento (NIDA, na sigla em inglês).

No entanto, diz outro académico ouvido pela AP, para a Tailândia conservadora, o Move Forward é um partido radical: defende a reforma das forças armadas e da monarquia, um passo ousado num país onde esta última é tradicionalmente considerada intocável.

O Pheu Thai partilha largamente a agenda reformista da Move Forward, mas a posição mais direta deste último coloca um dilema: uma coligação com o Move Forward pode antagonizar o Senado, a câmara alta do parlamento e órgão conservador.

A constituição da Tailândia, adotada em 2017 sob regime militar, exige que o primeiro-ministro seja escolhido por uma votação conjunta da Câmara de Representantes, com 500 membros, e do Senado, com 250 lugares nomeados pela junta no poder.

Em 2019, o Senado votou em bloco, apoiando unanimemente Prayuth. Desta vez, um partido que alcance a maioria dos assentos da Câmara dos Representantes pode ainda precisar de pelo menos 376 dos votos, caso o Senado se oponha ao candidato a primeiro-ministro.

Se Pheu Thai estiver nesta situação, pode procurar parceiros de coligação entre os partidos com assento na Câmara. Outra alternativa, sublinha a AP, seria nomear um dos outros candidatos do partido a primeiro-ministro, como é o caso de Srettha Thavisin, de 60 anos, que não carrega o peso do nome Shinawatra, uma maldição para os conservadores do Senado.

Entre as possibilidades do Pheu Thai, vislumbra-se também uma outra aliança: com o antigo general Prawit Wongsuwan, de 77 anos, vice-primeiro-ministro de Prayuth e candidato a chefe de Governo pelo partido de direita Palang Pracharath.

As sondagens não beneficiam nem Prawit Wongsuwan nem o partido, mas a presença no Governo pode tranquilizar alguns dos membros do Senado. Por um lado, a aliança pode aparentar um desvio da plataforma do Pheu Thai e, por outro, o facto de Prawit não ter estado ativamente envolvido na conspiração do golpe de 2014 pode ser usado para gerar empatia entre os apoiantes do Pheu Thai.

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