Uma colisão dramática durante o Tenerife-Andorra terminou da pior forma possível. Jesús de Miguel perdeu a vida, enquanto Jesús Owono, o guarda-redes envolvido no lance fatal, enfrenta uma dor profunda, uma onda de insultos e até ameaças de morte. Em Espanha, várias vozes já apelam ao fim do ódio e lembram que também há uma vida destruída por esta tragédia.
Jesús Owono está a viver um dos momentos mais dolorosos da sua vida. O guarda-redes do FC Andorra encontra-se profundamente abalado pela morte de Jesús de Miguel, avançado do Tenerife, na sequência do violento choque entre ambos durante o encontro disputado na passada segunda-feira.
O que deveria ser apenas mais um lance de futebol transformou-se numa tragédia irreversível. De um lado, uma família perdeu um ente querido. Do outro, um jogador terá de conviver para sempre com o peso emocional de um acidente que terminou da pior maneira possível.
A situação agravou-se ainda mais quando Owono começou a ser alvo de uma onda de ódio nas redes sociais. Entre insultos, acusações e ameaças de morte, o internacional pela Guiné Equatorial acabou por desativar as suas contas, numa tentativa de escapar à perseguição que se intensificou após o sucedido.
Um lance em segundos que mudou duas vidas para sempre
Tudo aconteceu aos 90+8 minutos, quando o marcador do Estadio Heliodoro Rodríguez López assinalava um empate a duas bolas.
Numa tentativa de impedir que Jesús de Miguel ficasse isolado perante a baliza, Owono abandonou a sua área e avançou em direção ao meio-campo para intercetar uma bola longa. O guarda-redes acabou por embater violentamente no avançado, que caiu desamparado no relvado.
Pouco depois, o jogador perdeu os sentidos, desencadeando momentos de enorme aflição entre colegas, adversários e restantes intervenientes no encontro.
A gravidade da situação tornou-se imediatamente evidente. Jesús de Miguel entrou em paragem cardiorrespiratória e foi transportado de urgência para o Hospital Universitário Nuestra Señora de Candelaria. Apesar dos esforços médicos, acabou por morrer na terça-feira.
O árbitro Miguel Pérez mostrou o cartão vermelho direto a Owono antes de suspender a partida, perante a consternação generalizada que tomou conta do estádio.
Segundo relatos divulgados em Espanha, o guarda-redes dirigiu-se posteriormente aos balneários em lágrimas, enquanto rezava para que o adversário conseguisse sobreviver.
O jornalista Iván Alvárez, da rádio Cadena COPE, revelou ainda que Owono tinha intenção de visitar Jesús de Miguel no hospital, na manhã seguinte, para lhe pedir desculpa pessoalmente e apresentar as suas condolências à família.
O plano passava também por assumir publicamente o sucedido através de um comunicado. Contudo, a morte do avançado impediu que esse gesto pudesse acontecer da forma inicialmente prevista.
Insultos, ameaças e uma dor que não desaparece
Depois da confirmação da morte, a pressão sobre Jesús Owono tornou-se ainda mais intensa.
O jogador, de apenas 25 anos, passou a receber mensagens extremamente violentas, sendo chamado de «assassino» e descrito como «um perigo». Algumas publicações foram ainda mais longe, incluindo ameaças de morte e ataques pessoais.
Perante uma escalada de hostilidade impossível de ignorar, Owono decidiu encerrar todas as contas que mantinha ativas nas redes sociais.
Mas, no meio de toda esta revolta, há uma questão que não pode ser esquecida: a morte de Jesús de Miguel é uma tragédia imensa, mas transformar o sofrimento de outra pessoa num alvo de violência não vai devolver a vida ao futebolista.
Mourinho e Mina Bonino apelam ao fim do ódio: «Não é um assassino»
Em Espanha, algumas figuras públicas já fizeram questão de demonstrar solidariedade para com o guarda-redes, recordando que o jogador também está a atravessar um momento emocionalmente devastador.
José Mourinho, na conferência de imprensa de antevisão ao encontro entre o Real Madrid e o AEK, relativo à quarta jornada da fase de liga da Liga dos Campeões, reconheceu que este é igualmente «um momento muito difícil» para Owono.
Uma das intervenções mais fortes partiu de Mina Bonino, mulher de Fede Valverde, jogador do Real Madrid orientado pelo técnico português. Através das redes sociais, deixou uma mensagem contundente contra a cultura de ódio e os julgamentos precipitados.
«O que aconteceu no jogo foi uma tragédia. Nem quero imaginar o sofrimento da família daquele rapaz, da sua filha, dos seus pais e da sua mulher. Não existem palavras capazes de aliviar uma dor desta dimensão», começou por escrever.
Mina Bonino reconheceu a gravidade do lance e as consequências irreparáveis que dele resultaram, mas deixou uma distinção fundamental:
«O guarda-redes vai carregar esta situação consigo para o resto da vida. Cometeu um erro, teve uma saída imprudente que custou a vida de um colega e que poderá também ter destruído a sua própria vida. Mas não é um assassino. Não podemos julgar como criminoso alguém que não teve intenção de matar.»
A mensagem tornou-se ainda mais incisiva quando abordou as consequências do julgamento público nas redes sociais.
«Cumprirá a sua sanção e terá de enfrentar uma condenação social que poderá acompanhá-lo para sempre. Mas ainda estamos a tempo de parar e evitar outra morte. Vivemos numa sociedade dominada pelo ódio, onde as redes sociais, que deveriam aproximar as pessoas, se transformaram num dos piores lugares do mundo. Todos parecem juízes, prontos a condenar alguém para sempre», concluiu.
Uma tragédia que exige respeito, humanidade e reflexão
A morte de Jesús de Miguel deixa uma família destroçada, amigos de luto e uma comunidade futebolística profundamente abalada. Nada poderá apagar essa perda, nem diminuir a dor de quem ficou.
Mas também é necessário reconhecer que Jesús Owono terá de viver com as consequências emocionais de um episódio que mudou a sua vida para sempre.
A justiça deverá apurar responsabilidades e o futebol terá de retirar as devidas lições. O que não pode acontecer é permitir que a indignação se transforme em perseguição, que a revolta dê lugar a ameaças ou que uma tragédia termine por alimentar outra.
Porque exigir responsabilidade é legítimo. Destruir uma pessoa através do ódio nunca será justiça.


