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Sexta-feira, Outubro 16, 2026

Novos Tempos: O direito de não achar graça

O humor pode tocar em tudo. Mas poder fazê-lo não torna todas as piadas inteligentes, pertinentes ou humanas. A sátira de Bruno Nogueira à comunhão eucarística, na série «Ruído», devolve-nos uma pergunta: onde acaba a irreverência e começa a gratuitidade?

Defendo a liberdade de criação. A religião não pode exigir imunidade à crítica, nem a Igreja esquecer que o riso também expõe incoerências, denuncia abusos e desmonta falsas solenidades. Há muito que aprender com quem nos obriga a olhar de novo para aquilo que fazemos por hábito.

Mas a liberdade do humorista convive com a liberdade de quem o contesta. Dizer que uma piada é pobre, descontextualizada ou ofensiva não equivale a pedir censura. O público não tem obrigação de rir e o crente não perde o direito à palavra por se sentir atingido naquilo que considera sagrado. A crítica é também uma liberdade.

É aqui que situo a minha crítica. A Eucaristia, para os católicos, é a presença real de Cristo, entrega e comunhão. Retirá-la desse horizonte para explorar o equívoco em torno do Corpo de Cristo parece-me uma redução sem nexo com o significado do sacramento. O choque pode ser imediato; a profundidade não nasce automaticamente dele.

Não é necessário acreditar para compreender o valor que uma realidade tem na vida dos outros. Exige-se apenas a disponibilidade para reconhecer que a fé não se resume a um conjunto de adereços disponíveis para produzir gargalhadas. Por detrás do gesto de comungar há pessoas, histórias, sofrimento, esperança e uma relação com Deus.

Também não basta responder que tudo depende do contexto. O contexto deve ajudar a perceber o alvo e a intenção da sátira, não funcionar como salvo-conduto para dispensar qualquer avaliação. Que contradição se denuncia? Que realidade se ilumina? Que pensamento fica depois do riso? São perguntas legítimas perante qualquer criação.

À televisão pública cabe acolher a liberdade artística e ouvir a crítica dos cidadãos, uma vez que é mantida pelo erário público. O pluralismo constrói-se nessa exigência recíproca. E aos cristãos cabe responder com firmeza e serenidade, sem insultar o humorista nem transformar a indignação numa competição de agressividade.
Os limites de que falo são os da consciência, da responsabilidade e da qualidade. Não peço uma lista de assuntos proibidos, qual Index do passado. Peço, apenas, que não se confunda provocação com talento, nem ausência de respeito com coragem.
Nestes novos tempos, precisamos de humor que nos desinstale. E de liberdade para dizer quando uma piada, em vez de abrir uma janela, apenas faz ruído.

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