Novos Tempos: A paz não se faz por calendário

O nosso povo tem um adágio que hoje faz todo o sentido: «Passou o dia, passou a romaria.» Terminadas as celebrações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos da América, dissipado o simbolismo político e mediático, Donald Trump anunciou aquilo que muitos analistas já antecipavam: o cessar-fogo “acabou”. Pelo caminho, sobraram ainda declarações inflamadas, classificando os dirigentes iranianos como “doentes”, numa linguagem que dificilmente ajuda a construir qualquer solução diplomática.

Na verdade, poucos acreditavam que aquela trégua fosse mais do que uma pausa estratégica. Era demasiado conveniente para todos os protagonistas. Os Estados Unidos garantiram tranquilidade durante as comemorações de um marco fundador da sua história. O Irão ganhou tempo para reorganizar a sua resposta interna, homenagear e sepultar os seus mortos, entre eles figuras de relevo do regime, e preparar o discurso para a fase seguinte do conflito. Israel, por seu lado, consolidou posições militares e políticas.

Quem perdeu? Como quase sempre, os civis.

A guerra contemporânea parece cada vez mais obedecer a um calendário político e mediático. Suspende-se quando convém, recomeça quando os interesses estratégicos assim o determinam. As tréguas deixam de ser passos rumo à paz para se transformarem em simples intervalos entre operações militares.

A Doutrina Social da Igreja oferece um olhar profundamente diferente. Desde São João XXIII, na encíclica Pacem in Terris, até ao Papa Leão XIV, a Igreja recorda que a paz nunca é apenas ausência de tiros. A paz nasce da verdade, da justiça, da solidariedade e da liberdade. Quando falta um destes pilares, qualquer cessar-fogo é apenas uma pausa temporária.

Também o Compêndio da Doutrina Social da Igreja afirma que a paz é “obra da justiça” e fruto de uma ordem moral. Não basta interromper os bombardeamentos; é necessário reconstruir relações de confiança, respeitar a dignidade humana e criar condições para uma convivência duradoura.

É precisamente aqui que reside a maior fragilidade das negociações internacionais atuais. Discute-se a duração da trégua, mas raramente se fala da reconciliação. Calculam-se vantagens militares, mas esquecem-se as feridas humanas. Contam-se mísseis, mas não se contam as crianças traumatizadas, as famílias desalojadas ou as comunidades destruídas.

As palavras também contam! E, quando um líder político utiliza expressões insultuosas para caracterizar um povo ou os seus dirigentes, não está apenas a produzir um título de jornal. Está a dificultar o caminho da diplomacia. A linguagem pode preparar a paz ou alimentar a guerra.

A Igreja insiste que a política deve ser uma das formas mais elevadas da caridade quando está verdadeiramente ao serviço do bem comum. Isso exige prudência, responsabilidade e respeito pelo adversário, mesmo quando existem divergências profundas.

Um dos maiores erros do nosso tempo é acreditar que a paz pode ser gerida como um instrumento de comunicação política: anuncia-se, suspende-se, retoma-se, conforme as conveniências do momento.

Contudo, a paz não se decreta num palco nem se constrói para satisfazer calendários eleitorais ou celebrações nacionais. Constrói-se lentamente, muitas vezes longe das câmaras, através da coragem do diálogo, da procura sincera da justiça e da recusa da lógica da humilhação do outro.

Os próximos capítulos deste conflito provavelmente voltarão a ocupar as manchetes. Haverá novas ameaças, novas respostas e novas justificações estratégicas.

A verdadeira pergunta, porém, permanece: haverá alguém disposto a investir na paz com a mesma determinação com que se investe na guerra?

Enquanto essa resposta não chegar, continuaremos a assistir ao mesmo guião: passa a festa, termina a trégua e recomeça a guerra. E a paz continuará à espera.

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