O conflito Israel/Hamas eclipsou a guerra Ucrânia/Rússia disse a jornalista Cândida Pinto, no Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos, durante uma conversa sobre a guerra, tema em que a verdade “é fugidia” e o risco de manipulação “elevado.
“As guerras não são umas melhores que outras, mas claramente Israel/Hamas eclipsou Ucrânia/Rússia”, afirmou esta noite, em Óbidos, Cândida Pinto, classificando “de outra dimensão” o conflito que “levanta muitos demónios, muitos medos do que poderá acontecer”.
De uma guerra que envolvia dois países, a Rússia e a Ucrânia, “num conflito que tem mais ou menos regras” passou-se para um conflito que logo nos primeiros dias “tem um número de mortes já na ordem dos milhares” e que terá “ impacto nas nossas vidas a dois níveis”, disse, aludindo ao encerramento de vários aeroportos franceses, nos últimos dias por ameaças de bomba, e à possibilidade de os preços do petróleo poderem atingir novos recordes.
À conversa com a também jornalista Ana França, uma mesa do Folio sobre os riscos da “Guerra”, Cândida Pinto, referiu-se ao conflito entre Israel e o Hamas para sublinhar que “a verdade é fugidia” e “tramada” quando se fala de guerras.
“O grau de manipulação que pode existir é muito elevado”, admitiu, exemplificando com a recente explosão num hospital da Palestina, em relação ao qual, face às versões contraditórias dos dois lados do conflito, “ é possível saber a verdade se se cumprirem as leis da guerra e s se houver uma comissão independente de investigação aquele ataque”.
Até lá, ficam os “efeitos de dominó, de reação em várias partes do mundo”, da Europa aos Estados Unidos e ao Médio Oriente e o “efeito incendiário” contrário aquilo que as duas jornalistas procuram nas suas reportagens de guerra: trabalhar apara a tolerância.
Uma motivação expressa na conversa em que abordaram os temas dos mais recentes livros da cada uma, ambos relatos “na primeira pessoa” das experiência que viveram na cobertura da guerra da Ucrânia.
Cândida Pinto demorou “ tempo até usar a palavra guerra”, conceito que lhe causa simultaneamente “respeito e desprezo” e que considera “demasiado doloroso para ser banalizado”. Sobretudo porque, “quando se vê o que as pessoas passam, de facto, nessas situações, a palavra torna-se muito mais densa”, explicou.
“Convicta de que a linguagem do jornalismo é uma responsabilidade”, Ana França, evita igualmente a palavra guerra e outras “que só servem para encolerizar ainda mais e fomentar ódios”.
Mas nos livros de ambas, “Ucrânia Insubmissa”, de Cândida Pinto, e, “Ali Está o Taras Shevchenko com Um Tiro na Cabeça: Diário da Ucrânia”, de Ana França, as autoras dão-se a liberdade de falar dos medos, da dores e das defesas que as ajudam a superar vulnerabilidades caladas em tempo de guerra.
“Quando se entra num pais que está em guerra nós mudamos”, disse Cândida Pinto, lembrando o foco no trabalho que leva os jornalistas a só sentirem as dores quando deixam o conflito. Ou, como disse Ana França “quando se chega a Portugal e se pode ir para casa da mãe, pedir mimo”.
A mesa das duas jornalistas fechou hoje o programa do Folio, festival que decorre em Óbidos, no distrito de Leiria, até domingo divido pelos capítulos Autores, Mais, Folia, Educa, Ilustra, BD e Boémia.


