O presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. Roberto Mariz, afirmou, em Faro, que a inteligência artificial (IA) pode apoiar a intervenção social, mas «nunca vai substituir o serviço social, o cuidado e o carinho», defendendo que a pessoa deve permanecer no centro da ação eclesial e social.
«A IA não substitui a caridade; não tira lugar e importância à Caridade. Exige-a», afirmou o bispo auxiliar do Porto, na conferência «Magnifica Humanitas – A tecnologia muda. A dignidade humana permanece», promovida pela Cáritas Diocesana do Algarve, a 29 de outubro, no Seminário de São José, em Faro.
Na iniciativa, que reuniu 82 participantes, incluindo o bispo do Algarve, D. Vitorino Soares, o responsável episcopal identificou aplicações da IA no setor social, nomeadamente no apoio ao diagnóstico, na análise e interpretação de dados e na articulação em rede, com potencial para agilizar e alargar as respostas às necessidades das populações.
D. Roberto Mariz considerou, contudo, que o principal desafio colocado por esta tecnologia é antropológico, defendendo uma abordagem centrada no amor, na compaixão e na dignidade humana. Sublinhou que os sistemas artificiais conseguem processar grandes volumes de informação e reproduzir comportamentos, mas não possuem experiência afetiva, relacional ou espiritual, nem conhecem a misericórdia, o perdão e a esperança na transformação de cada pessoa.
O bispo propôs, por isso, uma reflexão que ultrapasse a dimensão cognitiva da inteligência artificial e valorize outras dimensões da experiência humana, como a inteligência coletiva, espiritual, afetiva e relacional, da fragilidade e da compaixão. «Que o nosso cérebro não se perca», afirmou, apelando a uma humanidade mais consciente e solidária.
A conferência teve como referência a encíclica Magnifica Humanitas, dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial, apresentada pelo Papa Leão XIV a 25 de maio, no Vaticano.
Durante a intervenção, D. Roberto Mariz estabeleceu também uma relação entre este documento e a encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, publicada num contexto de transformação do mundo do trabalho provocado pela Revolução Industrial. Segundo o prelado, tal como aquele documento estabeleceu critérios perante as novas realidades laborais e a dignidade dos trabalhadores, a encíclica do atual pontificado procura oferecer orientações para o discernimento dos desafios introduzidos pela inteligência artificial.
A iniciativa foi promovida pela Cáritas Diocesana do Algarve e teve como orador o presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, segundo o jornal diocesano Folha do Domingo.
📷 Folha do Domingo






