O bispo de Santarém, D. José Traquina, defendeu uma Igreja capaz de integrar, valorizar e dar responsabilidade aos seus membros, alertando para o risco de comunidades onde alguns procuram concentrar funções ou onde os jovens são chamados apenas como “mão de obra”.
A intervenção aconteceu no passado sábado, durante a Assembleia Diocesana de Santarém, realizada no Convento de São Francisco, onde foi apresentado o programa pastoral para 2026/2027, subordinado ao tema “Fiéis a Jesus Cristo”.
“Não se pode ir com uma agressividade de não incluir pessoas. Não é só mão de obra para trabalhar, os jovens têm de fazer parte, eles têm de fazer parte da assembleia, tem de haver maneira de integração”, afirmou D. José Traquina.
Para o bispo de Santarém, a participação nas comunidades cristãs não se consegue apenas através de apelos ao envolvimento, mas sobretudo através da criação de espaços reais de pertença e responsabilidade.
“A mobilização está na integração”, sublinhou.
A mensagem dirigida às comunidades diocesanas foi também um alerta contra uma lógica de substituição ou afastamento de pessoas. “Não se arruma com pessoas, as pessoas são valorizadas”, afirmou D. José Traquina, defendendo simultaneamente uma atitude de abertura por parte de quem já exerce responsabilidades.
Segundo o bispo, é necessário ultrapassar o receio de perder funções ou influência quando outros começam a assumir responsabilidades. “A pessoa parece que está com medo de perder poderes. Não, o que devem ter é motivação para que outros se empenhem”, sustentou.
A responsabilidade, acrescentou, não deve ser entendida como um poder individual que alguém procura conservar, mas como uma tarefa partilhada por toda a comunidade.
“Não há um poder que vou agarrar sozinho, não. É uma comunidade que quer que todos cresçam para Deus e participem na responsabilidade da sua comunidade”, afirmou, considerando que este caminho de abertura e partilha “é um esforço que é possível”.
“O Espírito Santo não está apenas com o Papa, com os bispos ou com os padres”
D. José Traquina enquadrou esta mudança de atitude no atual caminho sinodal da Igreja, considerando que a sinodalidade não pode ser reduzida a uma palavra ou a um processo institucional, mas deve traduzir-se concretamente na vida das comunidades.
“Quero valorizar este aspeto que estamos agora a viver, a sinodalidade. É exatamente para isso, porque acreditamos que o Espírito Santo não está apenas com o Papa, com os bispos ou com os padres”, exortou.
O bispo de Santarém questionou, por isso, a tendência para limitar a participação dos fiéis, recordando que todos os batizados receberam o Espírito Santo.
“Todos são batizados, todos ou quase todos são crismados. O Espírito Santo não foi dado para todos? Não podem ter inspiração para participar? Porque não?”, questionou.
Para D. José Traquina, reconhecer a capacidade de participação e de discernimento dos leigos não significa pôr em causa os diferentes ministérios e responsabilidades existentes na Igreja.
“Isto não retira nada que o padre seja o padre, que o bispo seja o bispo, ou que o missionário seja o missionário”, afirmou.
O desafio, concluiu, passa por construir comunidades onde a diversidade de ministérios não seja motivo de disputa, mas expressão de uma responsabilidade partilhada.
“Não há dificuldade desde que tenhamos este entendimento da partilha e da corresponsabilidade”, acrescentou.
As palavras do bispo de Santarém deixam assim um desafio para o novo ano pastoral: uma Igreja que não se limita a pedir colaboração, mas que cria condições para que cada pessoa se reconheça como parte efetiva da comunidade; uma Igreja que não “arruma” pessoas, mas as valoriza; e uma Igreja onde a mobilização nasce, antes de tudo, da integração.
Confira a reportagem do Notícias em Direto da Assembleia Diocesana de Santarém aqui: https://www.facebook.com/reel/28733755839592085


