Foi em frente ao espaço onde Joaquim Sá serve, todos os dias, cerca de 40 refeições aos mais necessitados, nos falou do seu projeto pioneiro iniciado há quase quatro décadas nas Caldas da Rainha o “De volta a Casa”.
Este projeto é mais do que uma simples distribuição de comida para os mais necessitados, é uma rede de acolhimento e esperança para os marginalizados pela sociedade, onde se juntam várias pessoas e entidades para que seja possível tornar a vida destas pessoas mais digna.
“Eu penso que, na altura, quando surgiu este projeto, não havia mais nenhuma instituição que desse apoio especificamente a pessoas sem abrigo, fui pioneiro aqui nas Caldas.”, considera Joaquim.

No meio da agitação do serviço dos almoços, “Quim”, como é tratado carinhosamente pelos mais chegados, explica-nos como é que esta aventura começou: “Na altura passava muito pela praça da Fruta, portanto, a Praça da República. E havia muitos jovens marginalizados pela sociedade e comecei a pensar sobre o assunto, como havia de fazer para os ajudar. Então surgiu a ideia de escrever umas cartas com uma mensagem apelativa e também para dar um bocado de ajuda no sentido de fazerem um projeto de vida. E comecei a distribuí-las ao final do dia a esses jovens”, explica Joaquim.
À medida que o tempo foi passando, o projeto começou a ter outra forma e Joaquim, “conforme as (suas) possibilidades” começou a ajudar estes jovens a nível alimentar e de vestuário. Atualmente, tem pessoas e locais de comércio que o ajudam a cumprir a sua missão: “… a praça do peixe, a praça da fruta, alguns restaurantes que nos ajudam, temos as sobras da Refood … particulares, pessoas que nos ajudam aqui pontualmente, outros ajudam com a renda…”, enumera Joaquim.

No entanto, o projeto enfrenta desafios diários, porque quando não há essa ajuda, Joaquim tem de se deslocar a um supermercado e pagar do seu bolso todas as compras que fizer para que as pessoas que dependem dele, possam se alimentar nesse dia: “…quando não há esse tipo de ajuda, tem que partir da minha parte… quando é assim, tem de ser do meu ordenado.”, assegura Joaquim. Avança ainda que o seu ordenado “vai quase todo” para conseguir ajudar estas pessoas.
“De Volta a Casa” enfrenta uma constante incerteza financeira e a crise económica atual agrava ainda mais essa situação, com a redução da oferta de trabalho para aqueles que dependem do projeto para sobreviver.
Além disso, um dos principais desafios diários é garantir comida todos os dias, pois Joaquim não pode contar com um orçamento fixo e vive na incerteza diariamente, tendo de lidar com um “amanhã logo se vê”.
Mas a luz da esperança brilha através dos voluntários dedicados, como Patrícia Duarte, cujo testemunho revela o poder transformador do voluntariado: “Eu vim aqui porque precisava, mas depois vi as pessoas a fazerem tudo sozinhas e eu queria ajudar”, compartilhou Patrícia, destacando como o projeto não só a ajudou em momentos difíceis, mas também a inspirou a retribuir a gentileza: “É uma forma de eu retribuir o que fizeram por mim … era ajudar. E é assim que eu me sinto bem.”, admite Patrícia.

Na sua entrevista, Patrícia enfatizou a importância de gostar do que está a fazer como um requisito fundamental para ser um bom voluntário. Ela própria descobriu no voluntariado uma lição valiosa, onde aprendeu a ser uma pessoa melhor ao ajudar as pessoas certas, o que a levou a reconhecer que “anteriormente ajudava as pessoas erradas”.
O impacto do “De Volta a Casa” na comunidade Caldense é visível. Com as suas portas sempre abertas e sem a necessidade de formulários ou protocolos, o projeto oferece não apenas alimentos, mas também a possibilidade de os que mais precisam fazerem a sua higiene pessoal, lavarem a sua roupa ou até obterem vestuário que outrora foi doado ao projeto.
No entanto, os desafios persistem. Joaquim sonha com um espaço próprio para o projeto, livre das incertezas impostas por senhorios e capaz de oferecer apoio constante àqueles que dependem do “De Volta a Casa” para sobreviver.

A presença constante de voluntários e a colaboração de estabelecimentos locais são testemunhos do poder da solidariedade em transformar vidas. Enquanto isso, o trabalho incansável de Joaquim, Patrícia e outros voluntários continua a ser uma fonte de inspiração para toda a comunidade Caldense. Num mundo frequentemente marcado pela indiferença, o “De Volta a Casa” é um lembrete poderoso de que, juntos, podemos fazer a diferença e construir um futuro mais solidário e inclusivo para todos.


